Luana
Barbosa
12 nov. 1981 — 13 abr. 2016
Mulher negra, lésbica, mãe, periférica. Morta aos 34 anos após ser espancada por três policiais militares enquanto levava seu filho a um curso. Sua morte não foi acidente. Foi a consequência de um Estado que nunca a reconheceu como humana.
uma vida inteira pela frente
Luana Barbosa dos Reis Santos nasceu em 12 de novembro de 1981 no Jardim Paiva, periferia de Ribeirão Preto, dois dias após o assassinato de seu próprio pai, morto com três tiros e enterrado como indigente. Filha caçula de cinco irmãos, cresceu num bairro marcado pela violência estrutural, mas ficou conhecida na família e na vizinhança como Foguinho: uma criança vibrante, que gostava de correr e jogar bola no quintal.
Enfrentou prisões na juventude e um longo período de afastamento do filho, Luan, fruto do único relacionamento heterossexual que teve na vida. Quando saiu do sistema prisional, reconstruiu tudo: trabalhou, juntou dinheiro, sonhou com a faculdade e comprou uma motocicleta — o mesmo veículo que pilotava na noite em que foi assassinada.
O Crime
Era por volta das sete horas da noite quando Luana saiu de casa para levar Luan, então com 14 anos, ao curso de informática. Ela parou a moto na frente de um bar para cumprimentar um amigo. Nesse momento, uma viatura da Polícia Militar se aproximou. O que veio a seguir ficaria marcado como um dos episódios mais brutais e emblemáticos da violência policial racista, lesbofóbica e classista do Brasil.
A abordagem ilegal
A recusa e o direito negado
O espancamento
A inversão na delegacia
A morte e o silêncio
“Ela pagou o preço por parecer um homem negro e pobre. Foi abordada como outros homens da periferia são. Lésbica, negra e periférica com passagem pela polícia, ela já era considerada culpada.”
Os três policiais militares acusados de homicídio triplamente qualificado DOUGLAS LUIZ DE PAULA · FÁBIO DONIZETI PULTZ · ANDRÉ DONIZETI CAMILO
Todos em liberdade.
Um deles se aposentou em 2017. Outro voltou a trabalhar em atividade operacional em Ribeirão Preto ainda durante a investigação. Nenhum foi preso. emblemáticos da violência policial racista, lesbofóbica e classista do Brasil.
uma década de impunidade e luta
Luana é espancada pelos policiais
Luana morre no Hospital das Clínicas
Movimentos tomam as ruas de Ribeirão Preto
ONU Mulheres e ACNUDH exigem investigação
Pedido de prisão temporária negado — e caso remetido à Justiça Militar
Pronunciados: os três PMs vão a júri popular
TJ-SP mantém o júri, mas retira as qualificadora
STF nega último recurso — decisão é definitiv
O júri popular ainda não tem data marcada
Nasce a festa Sarrada no Brejo
MP oferece denúncia: homicídio triplamente qualificado
Audiências marcadas por intimidação e pressão policial
ONU solicita informações ao governo brasileiro
STJ restaura as qualificadoras do homicídio
porque importa e o que fica claro
O caso Luana Barbosa é a síntese de um sistema que, desde a colonização, decidiu quais corpos valem e quais podem ser destruídos sem consequência. Luana foi abordada por ser negra. Foi espancada por ser lésbica. Foi criminalizada por ser periférica. E foi assassinada impunemente por ser tudo isso ao mesmo tempo em uma sociedade onde a interseção de raça, gênero, sexualidade e classe define quem tem direito à vida.
Discutir violência racial sem considerar gênero e sexualidade é cair nas armadilhas postas pelo próprio Estado, que achata as diferenças porque não sabe lidar com elas. O corpo de Luana existia na intersecção de todas essas opressões.
A ONU apontou que 85% das mortes decorrentes de ações policiais têm como origem o policiamento de delitos menores, paradas e revistas no trânsito, exatamente como no caso de Luana. Seus assassinos responderam ao crime enquanto seguiam trabalhando ou recebendo aposentadoria. Nenhuma punição ou responsabilização imediata. Apenas burocracia e morosidade como instrumentos ativos de impunidade.
“Para que não exista nenhuma Luana a menos, é fundamental tornar público a história de uma morte não natural, embora naturalizada, e o direito de justiça que nos resta.”
por todas
por nós
por luana
FONTES · Este memorial foi construído a partir de:
Vários Autores — “O que faz o caso Luana Barbosa tão assustador?” — FGV Direito SP / Justiça em Preto e Branco (2022) , Isadora Façanha Gurgel Freire — “Um luto que dança: o festejar lésbico e negro em memória a Luana Barbosa” — Revista Vivência UFRN, Ed. 61 (2023) , Amanda Pimentel, Élida Lauris, Malu Stanchi, Thula Pires — “Racismo Patriarcal Cisheteronormativo e a Violência Policial: o caso Luana Barbosa” — Coleção Criola (2025), Tatiana Merlino — “Luana Barbosa: morta por ser mulher, negra, pobre, lésbica” — Dossiê Feminicídio #InvisibilidadeMata (2017), Ponte Jornalismo — “Caso Luana Barbosa: STF nega recurso e confirma júri popular de PMs” — março de 2025, Revista Afirmativa — “Assassinato de Luana Barbosa completa 8 anos sem julgamento” — abril de 2024
