Manifesto Político da 24ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo

Mulheres lésbicas e bissexuais nas ruas por JUSTIÇA POR LUANA BARBOSA

A Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo nasceu em 2003, no contexto do V SENALE, hoje SENALESBI, como resposta à necessidade histórica de construir um espaço político próprio, onde nossas vozes, memórias, dores, desejos e reivindicações não fossem invisibilizadas dentro nem fora do movimento LGBTQIA+.

Desde então, seguimos transformando as ruas em território de resistência, denúncia, celebração, memória e construção coletiva. Caminhamos porque existir, para mulheres lésbicas e bissexuais, ainda é enfrentar o patriarcado, o racismo, a lesbofobia, a bifobia, a misoginia, a violência institucional e todas as formas de controle sobre nossos corpos e nossas vidas.

Em 2026, marchamos por JUSTIÇA POR LUANA BARBOSA.

Você sabe quem foi Luana Barbosa?

Luana Barbosa dos Reis Santos era uma mulher negra, lésbica, periférica, mãe e trabalhadora. Tinha 34 anos. Vivia na periferia de Ribeirão Preto. Criava seu filho, Luan, construía sua vida e enfrentava, como tantas mulheres negras e lésbicas neste país, as violências cotidianas produzidas pela desigualdade, pelo racismo, pela lesbofobia e pela precarização da vida.

No dia 8 de abril de 2016, Luana saía de casa para levar seu filho de 14 anos a um curso de informática quando foi abordada por 3 policiais militares. Luana recusou-se a ser revistada por homens e reivindicou o direito de ser revistada por uma policial mulher. Esse direito lhe foi negado. Luana foi agredida, reagiu e foi brutalmente espancada por três policiais na frente de seu filho. Vizinhos e familiares foram impedidos de intervir, ajudar ou registrar a violência. Seu corpo foi agredido, imobilizado, amarrado e jogado em uma viatura. Luana não foi socorrida, mesmo gravemente ferida, foi levada à delegacia na condição de acusada. O Estado que a violentou tentou também criminalizá-la.

Luana morreu no dia 13 de abril de 2016, em decorrência das lesões cerebrais causadas pela violência sofrida. Sua morte não foi um acidente. Não foi um caso isolado. Foi racismo e lesbocídio. Foi violência de Estado. Foi a expressão brutal de um sistema que transforma corpos negros, lésbicos, periféricos e dissidentes em corpos suspeitos, descartáveis e matáveis.

O caso Luana Barbosa expõe, de forma incontornável, a intersecção entre racismo, lesbofobia, misoginia, violência policial e criminalização da pobreza. Luana não foi reconhecida como mulher quando reivindicou seu direito. Não foi reconhecida como cidadã quando pediu respeito. Não foi reconhecida como vítima quando foi brutalmente agredida. Ao contrário: foi tratada como ameaça, como alvo, como corpo a ser punido.

É isso que torna o caso Luana tão assustador: ele revela como o Estado opera quando está diante de uma mulher negra, lésbica, periférica e masculinizada. Primeiro, suspeita. Depois, violenta. Em seguida, criminaliza. Por fim, protela a justiça e tenta apagar a memória.

Mas Luana não será apagada.

Sua família transformou dor em denúncia. Mãe, filho, irmãs. Movimentos de mulheres negras, movimentos de lésbicas e mulheres bissexuais, feministas, organizações de direitos humanos e mídias negras mantiveram viva a luta por justiça. A mobilização pelo caso Luana rompeu silêncios e denunciou aquilo que o sistema de justiça tantas vezes tenta esconder: quando agentes do Estado matam mulheres negras, lésbicas e periféricas, a impunidade não é falha do sistema; é parte de seu funcionamento.

A demora na responsabilização dos policiais, as tentativas de criminalização de Luana e de sua família, a intimidação de testemunhas, a dificuldade de levar o caso a júri popular e a permanência dos réus em liberdade revelam a blindagem institucional que protege a violência policial no Brasil. O caso chegou a ser mencionado em debates internacionais sobre racismo sistêmico e violência de forças de segurança contra pessoas afrodescendentes, evidenciando que a morte de Luana é também denúncia do Estado brasileiro diante do mundo.

Por isso, quando dizemos JUSTIÇA POR LUANA BARBOSA, não falamos apenas de um processo judicial. Falamos de revolta e memória. Falamos de reparação. Falamos de responsabilização do Estado. Falamos do direito de mulheres lésbicas e bissexuais viverem sem medo. Falamos do direito de mulheres negras existirem sem serem criminalizadas. Falamos do direito de mães voltarem para casa vivas. Falamos do direito de nossos filhos, famílias e comunidades não testemunharem a destruição de nossas vidas pela violência policial.

Quando falamos de Justiça por Luana, estamos reivindicando que o Governo Brasileiro reconheça o lesbocídio como crime de ódio contra as lésbicas!

Marchamos por Luana e por todas as mulheres lésbicas e bissexuais assassinadas, violentadas, expulsas de casa, estupradas, perseguidas, invisibilizadas, adoecidas, empobrecidas e silenciadas. Marchamos pelas que foram apagadas das estatísticas oficiais. Pelas que não tiveram seus nomes lembrados. Pelas que tiveram suas mortes tratadas como “casos comuns”, quando eram crimes marcados por ódio, racismo, lesbofobia e misoginia. Marchamos pelas mulheres lésbicas e bissexuais negras, indígenas, periféricas, trans, com deficiência, jovens, adultas, idosas, trabalhadoras, mães, estudantes, desempregadas, migrantes, privadas de liberdade e por todas aquelas que resistem em territórios onde o Estado chega primeiro pela repressão e quase nunca pelo cuidado.

Reafirmamos: não há democracia possível enquanto mulheres lésbicas e bissexuais continuarem sendo mortas, violentadas e invisibilizadas. Não há justiça possível enquanto a violência policial seguir protegida pela impunidade. Não há orgulho possível sem memória, sem reparação e sem compromisso real com a vida das mulheres negras, lésbicas, bissexuais e periféricas.

Por isso, exigimos:

Justiça por Luana Barbosa e responsabilização dos policiais envolvidos em sua morte.

Fim da violência policial e da criminalização de mulheres negras, lésbicas, bissexuais, periféricas e dissidentes.

Reconhecimento do lesbocídio e da lesbofobia como dimensões estruturantes da violência contra mulheres no Brasil.

Produção de dados oficiais sobre violências contra mulheres lésbicas e bissexuais, com recorte de raça, gênero, território, idade, deficiência e classe social.

Políticas públicas efetivas de enfrentamento à lesbofobia, à bifobia, ao racismo, à misoginia e à violência institucional.

Garantia de acesso à justiça, proteção de familiares e testemunhas, reparação às vítimas e responsabilização do Estado.

Formação antirracista, antimachista, antibifóbica e antilesbofóbica das forças de segurança, do sistema de justiça, da saúde, da educação e da assistência social.

Saúde integral, trabalho digno, moradia, educação, cultura, segurança e renda para mulheres lésbicas e bissexuais.

Respeito aos nossos corpos, às nossas identidades, aos nossos afetos, às nossas famílias e às nossas formas de existir.

A 24ª Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo ocupa as ruas porque a memória de Luana Barbosa vive em cada mulher que se recusa a desaparecer. Vive em cada mãe que luta por seus filhos. Vive em cada trabalhadora que enfrenta a precarização. Vive em cada mulher negra que desafia a morte anunciada. Vive em cada lésbica e bissexual que transforma medo em organização, luto em luta e dor em movimento.

O Estado tentou transformar Luana em estatística.

Nós transformamos Luana em memória, denúncia e luta coletiva.

Luana tinha nome.

Luana tinha filho.

Luana era mãe.

Luana era trabalhadora.

Luana tinha história.

Luana tinha futuro.

E é por esse futuro interrompido que seguimos nas ruas.

Por Luana Barbosa.

Por todas as mulheres lésbicas e bissexuais vítimas da violência.

Pela vida das mulheres negras, periféricas e dissidentes.

Por memória, verdade, justiça e reparação.

Enquanto houver lesbofobia, bifobia, racismo, misoginia e violência de Estado, seguiremos em marcha.

Nossa existência é política.

Nossa memória é resistência.

Nossa luta é por vida.

Justiça por Luana Barbosa!

Por Luana. Por nós. Por todas.